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Como lidar com filhos adolescentes? Saiba porque a comunicação é a chave

BNWWKT Mother and daughter having an argument. Image shot 2010. Exact date unknown.

A adolescência é um período de intensas transformações. Como lidar com os filhos adolescentes? Seu bebê de repente é substituído por um ser gigantesco, com opiniões próprias e nenhuma paciência. Tudo que você faz é cafona, irritante ou inadequado. E na frente dos amigos dele, então? Você se sente um dinossauro.

Realmente a adolescência é um divisor de águas. Para os filhos, os hormônios estão a mil, as responsabilidade mudam e eles começam aos poucos colocar os pés na vida adulta. Para os pais, é o momento de diminuir o controle sobre os filhotes e dar espaço para que se fortaleça sua autonomia. No entanto, ainda é preciso manter a orientação e a supervisão, garantindo que as tarefas sejam cumpridas e as regras seguidas.

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Essa fase está recheada de conflitos, assim como quase tudo na vida. E ao lidar com qualquer tipo de conflito, saber como se comunicar de maneira mais eficiente pode render uma relação menos turbulenta e proporcionar o crescimento de uma conexão mais forte entre pais e filhos.

Marshall Rosemberg é um psicólogo americano que desenvolveu um método de comunicação interpessoal. Sua metodologia possui como objetivo diminuir os atritos e estabelecer um laço de conexão entre os interlocutores. Esse método se chama Comunicação Não-Violenta (CNV).

Neste artigo, saiba como lidar com filhos adolescentes usando uma técnica de comunicação mundialmente conhecida. Saiba estabelecer a empatia, detectar as necessidades que estão por trás do que seu filho diz e também comunicar as suas necessidades de maneira eficiente. Assim, os conflitos podem ser trabalhados de maneira mais harmônica.

Preparada? Então vamos lá!

O que é a comunicação não-violenta?

O termo comunicação não-violenta pode assustar um pouco no começo. Pode fazer você pensar coisas do tipo: “Mas a minha comunicação com meu filho não é violenta”. Pode ser realmente que sua intenção ao se comunicar com o jovem não seja de agredi-lo. Infelizmente, porém, a agressividade pode surgir das melhores intenções.

Segundo Marshall Rosenberg:

Embora possamos não considerar “violenta” a maneira de falarmos, nossas palavras não raro induzem à mágoa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos.

A violência na comunicação pode se apresentar de várias maneiras. As formas explícitas de violência na comunicação acontecem quando você ofende a outra pessoa, usa palavras de baixo calão ou ameaças. No entanto, quando você rotula a outra pessoa, faz um julgamento moralizador de suas atitudes e dá uma ordem, há uma forma de violência velada. Já ouviu falar do jeito “passivo-agressivo” de se comunicar? É disso que se trata.

Vamos usar um exemplo para entender melhor?

Digamos que seu filho possua a tarefa de tirar o lixo todos os dias e que ele tem falhado no cumprimento desse acordo. Já fazem pelo menos dois dias que o lixo se acumula e ele não toma a iniciativa para assumir a sua responsabilidade em relação a isso.

Você, que já está cansada dessa falta de compromisso e já não está com a relação tão boa com seu filho, chega dizendo: “Quantas vezes vou ter que dizer que é sua responsabilidade tirar o lixo? Você é um irresponsável! Você é um preguiçoso! Levanta daí agora e vai colocar o lixo para fora!”. Às vezes é difícil controlar a raiva, é compreensível…

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O único problema é que, ao agir assim, você o deixará numa postura defensiva. Quando você o rotula de irresponsável e preguiçoso, a ofensa dessas palavras causa raiva e frustração. A tendência é que ele até siga sua ordem, mas muito à contragosto e ainda fique com um sentimento de injustiça. E e pior: pode dizer coisas não muito gentis a seu respeito também.

A comunicação não-violenta possui 4 passos que podem ajudar você a comunicar suas necessidades ao seu filho sem que ele já se arme de sete pedras para atacar de volta. Vamos compreendê-las?

As quatro etapas da comunicação não-violenta são:

  1. Observação: perceber o que está acontecendo sem emitir julgamentos morais ou rotular as pessoas e as situações, apenas entendendo o que agrada ou não no comportamento da outra pessoa;
  2. Sentimento: identificar quais sentimentos essa situação gera em você, ou seja, você fica assustada, com raiva, irritada, magoada, animada, etc;
  3. Necessidade: distinguir quais necessidades suas estão por trás deste sentimento, o que você precisa que seja feito pela outra pessoa para que você se sinta melhor;
  4. Pedido: comunicar, de maneira objetiva e simples, o que você precisa que seja feito.

E aí, achou complicado? Tudo bem, vamos explicar direitinho cada etapa. Mas antes, vamos voltar ao nosso exemplo do lixo?

1. Observar sem emitir julgamento

A primeira coisa que você deve fazer é observar a situação. O lixo acumulado está juntando moscas e outros insetos, sem contar o mau cheiro. A tarefa de colocar o lixo para fora não está sendo cumprida como o combinado. Isso causa irritação e raiva, porque você preza pela limpeza e a ordem da casa. Como expressar isso de maneira mais assertiva?

Pode ser algo do tipo: “Filho, o lixo está acumulando moscas e formigas. O mau cheiro também está aumentando. Isso me incomoda muito, porque acho importante manter a casa limpa e agradável para nós. Você pode, por favor, retirar o lixo?”. Você pode ainda emitir seu desejo para que ele cumpra com o combinado todos os dias, porque o mau cheiro e os insetos são prejudiciais à saúde e ao bem estar.

2. Ouvir as necessidades e sentimentos por trás das palavras

Com o tempo, você também aprende a aplicar os 4 passos da comunicação não-violenta com o seu filho. Quando ele diz, por exemplo, que você é chata, mandona ou que não deixa ele em paz, é possível não tomar essas palavras como ataques, mas como a expressão inadequada das reais necessidades dele.

Talvez ele esteja se sentindo muito sufocado pelas ordens e sermões que ouve. Na adolescência, há um afastamento dos filhos em relação aos pais e uma necessidade de maior autonomia. Ao mesmo tempo que já é considerado “grande” o suficiente para se responsabilizar por determinadas coisas, ainda é tido como dependente e incapaz de tomar outras decisões. Isso gera muita frustração.

3. Empatia e compaixão

Então, quando ouvir esse tipo de coisa de seu filho, que tal tentar identificar a necessidade por trás do que ele diz. Voltemos ao nosso exemplo.

Quando você emite sua necessidade, ele responde: “Que saco, só quero jogar meu videogame em paz! Você só fica mandando em mim o tempo todo!”. É hora de respirar fundo, manter a calma e tentar entender o que se passa: “Você fica irritado quando recebe ordens? Você gostaria que eu dissesse o que é preciso ser feito de outra forma?”. Aos poucos você vai investigando o que ele está sentindo.

Mais cedo ou mais tarde ele estará dizendo: “Isso mesmo! Eu estou cansado de todo mundo me dizendo o que tenho que fazer! Quero poder cuidar da minha própria vida! Não posso nem ir a uma festa com meus amigos!”. E aí vocês vão dialogando para encontrar um ponto de acordo. Se ele cumprir com as tarefas pontualmente, você se compromete a não ficar dando ordens o tempo todo. Também é possível negociar uma maior autonomia para ele e confiar mais na capacidade dele de se cuidar e ser responsável por si.

4. Cuidado com os palpites

O exercício de ouvir os sentimentos e necessidades da pessoa que fala com você exige um enorme esforço de desligar os julgamentos e deixar os palpites para o momento certo. Quando seu filho se abre com você ou compartilha algum sofrimento ou frustração, é normal que você queira dizer: “Eu já passei por isso, sei como é. Você tem que fazer isso e aquilo”. Talvez ele precise que você demonstre isso de outra maneira.

Em vez de dizer frases genéricas, como “eu sei o que você está passando”, procure ser mais específica. Por meio do que ele diz, tente fazer observações que se conectem com o que ele sente. Coisas como: “Isso deixa você com raiva, é isso que você quer dizer?”

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E guarde os palpites para os momentos oportunos. Preste atenção aos sinais. Quando ele já tiver desabafado bastante, pode ser que diga coisas que passem a ideia de necessidade de orientação, como: “Não sei mais o que fazer” ou “Já estou cansado disso”. Nesses momentos, tente contar como foi para você passar por essas coisas e compartilhe com ele como você fez para lidar com essas situações. Não precisa impôr  sua maneira de resolver, apenas mostrar outra perspectiva.

Ele encontrará o jeito dele de resolver a situação e resolver os problemas.

5. Ser mãe é ter paciência

Essa abordagem não é uma fórmula mágica e pode ser que você tenha que pedir mais de uma vez. Pode ser que seu filho não haja como você espera todas as vezes. Mas o importante é treinar essa empatia e não levar as palavras como afrontas ou ataques. As palavras sempre são a expressão de sentimentos e necessidades.

Por mais que você tenha o desejo de manter o mesmo controle que tinha até então sobre seu filho, esta fase da vida exige menos controle e mais confiança. Seu bebê está se aventurando para os territórios além do espaço debaixo da sua asa e é preciso ser forte para lidar com isso.

Nem sempre o filho irá agradar a mãe. Assim como nem todas as suas atitudes o agradam. A questão aqui é praticar a tolerância e saber que nem sempre vocês irão concordar com tudo e que é assim mesmo, afinal, vocês são dois seres humanos diferentes, que possuem sonhos, desejos, necessidades e sentimentos diversos.

Se você gostou desse artigo sobre a comunicação não-violenta para lidar com filhos adolescentes, veja também este mini-curso gratuito da Carolina Nalon, especialista em CNV. São duas palestras em forma de vídeo, que podem ajudar a sanar muitas dúvidas.

Fica também a dica de leitura do livro de Marshall Rosenberg: Comunicação Não-Violenta – Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais.

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Obrigada! E até mais!

Sobre o autor

Mariana Mendes