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Entrevistas Saúde

Outubro Rosa e o Relato das Guerreiras: a história de Jô

Outubro Rosa é o mês internacional da divulgação da luta contra o câncer de mama. O Tudo Ela realizou uma série de entrevistas com as guerreiras que estão em luta contra o câncer de mama. Confira:

Jociane Monteiro, 41 anos, do Rio de Janeiro, seu marido Silvio Monteiro e sua filha Mel Monteiro

Como tudo começou

Jociane Monteiro, descobriu o câncer de mama aos 39 anos, em setembro de 2016. Como já possuía casos na família, sua mãe mesmo já venceu essa luta, fazia o acompanhamento desde os 31.

Tudo começou com um incômodo na mama esquerda, mas depois, quando mostrava o nódulo para uma amiga médica, descobriu outro em “um lugar meio esquisito”, explica, entre a mama e a axila.

Foi à médica e recebeu um encaminhamento para fazer uma ressonância magnética: “não foi nem a mamografia”, comenta. De acordo com o Hospital Sírio Libanês, a ressonância magnética é um tipo de exame com alta sensibilidade, cerca de 95%, capaz de detectar lesões imperceptíveis à mamografia e à ultrassonografia, por exemplo. É indicada para pessoas com histórico familiar ou pessoal de câncer, terapia de reposição hormonal e alterações genéticas hereditárias.

Após a realização do exame, descobriu um tumor num local de difícil verificação por outros métodos: “Talvez, se a minha ginecologista, naquela primeira consulta, tivesse me pedido somente a mamografia, não teria descoberto tão cedo o tumor”, acredita.

A ressonância detectou um tumor BIRADS 4. Como já vimos no relato de Cristiane, o BIRADS é um sistema de avaliação usada em laudos médicos. O BIRADS 4 indica 20% de chances de câncer. Então, Jô permaneceu com essa dúvida.

Uma cena dura

Para confirmar o diagnóstico era preciso realizar uma biópsia. A mãe de Jô, que já passou pelo câncer de mama, teve que fazer o mesmo exame há alguns anos. “Eu fui acompanhando ela e lembro que foi bem dolorido para minha mãe”, relata, “lembro que foi bem sofrido pra ela, a médica enfiando aquela agulha na mama dela, puxando, enfim, tentando tirar líquido, uma cena bem dura”.

Quando soube que teria que fazer a biópsia, essa cena voltou em sua cabeça imediatamente. “Eu achei que a minha biópsia seria conforme a da minha mãe, né, bem dolorido”, afirma.

Dia 30 de outubro de 2016 realizou o exame. O marido a acompanhou e, embora tenham lido a respeito do procedimento, a apreensão persistiu, afinal havia uma memória de sofrimento envolvida. “Tem algumas coisas que a gente não consegue expressar em palavras, o sentimento é impalpável”, explica. A médica conversou com Jô durante o exame para tirar o foco do procedimento. Não foi tão dolorido quanto a da mãe, mas sentiu-se estranha: “É esquisito fazer aquele tipo de pulsão, aquela pistolinha disparando dentro do peito”.

A médica produziu um laudo inicial e mandou o material para uma análise mais detalhada. No parecer prévio já constava BIRAIDS 5, indicando 95% de chances de tumor maligno. No documento constava, ainda, a sigla CA, apontando a possível existência do carcinoma. Naquele momento foi Jô que acalmou o marido, dizendo que deveriam esperar o resultado definitivo e não se desesperar. “Eu descobri uma força que eu não tinha”, afirma.

A informação mais limpinha possível

O resultado demorou mais do que o esperado para ficar pronto. Quando finalmente saiu, o marido de Jô o pegou no laboratório. “Eu lembro que ele chegou em casa com o envelope”, relembra “dizendo que ele adoraria que fossem nossas passagens, nosso pacote pra Cancún, que não era ainda, mas que em breve seria”. A viagem para Cancún estava nos planos do casal havia um tempo. Ele ainda disse que estavam por vir tempos difíceis, mas que iriam passar por isso: “E a vida continuaria certamente”.

Jociane resistiu ao desespero. Mesmo com todos os sentimentos borbulhando dentro dela, manteve a serenidade e colocou o tratamento em foco. Sempre aguardando as orientações médicas, buscando informações sobre o tratamento e pensando no passo seguinte, conseguiu manter-se em equilíbrio. “É claro que por dentro, bem lá no fundo, eu estava triste, mas já havia em mim uma esperança de que eu iria conseguir passar por esse período, de que eu não podia me entregar”.

Jô decidiu não contar a ninguém da família e dos amigos, apenas o esposo sabia. “Queria passar a informação mais limpinha possível”, diz. Até compreender mais sobre o tratamento, preferiu manter a notícia em segredo.

Para manter-se em harmonia, optou por não ter que lidar com o desespero e com a piedade das pessoas. Não queria que ninguém pensasse que ela iria morrer, que seus dias estavam contados: “Não queria este tipo de sentimento”, define. E complementa: “Queria que as pessoas soubessem que eu estava bem, que eu ia fazer o tratamento sim, que eu ia lutar sim, que eu não ia me entregar”.

Mulheres que Pintam as Unhas Diariamente

Reunião do MPUD

Quando se fala de câncer, não apenas de câncer de mama, o que vem na memória, geralmente, é a perda de cabelos que acontece durante o tratamento quimioterápico. Quando falamos de mulheres, então, isso tem um peso ainda maior, afinal, temos uma cultura estética muito mais consolidada no cuidado com o cabelo.  A  cena da novela Laços de Família, com Carolina Dieckmann raspando os cabelos ao som de Love By Grace, na voz de Lara Fabian, já se tornou um clássico, marcou toda uma geração.

O que poucas pessoas sabem, contudo, é que os cuidados com as unhas também são impactados durante o tratamento do câncer.

Jô participa do MPUD desde a época da faculdade. A sigla significa: Mulheres que Pintam as Unhas Diariamente. A paixão pelas unhas bem feitas gerava troca de informações, coleções de esmaltes, encontros e brincadeiras como “amigo oculto de esmalte”. Até um blog elas fizeram.

Quando ouviu do mastologista que não poderia mais fazer as unhas por causa do risco de infecção, Jociante sentiu muito. Para a perda dos cabelos estava preparada. Já para a impossibilidade de fazer as unhas com a frequência que fazia antes, não.

Apesar disso, diz, a preocupação maior era outra: “O que eu queria era viver, com mama, sem mama, com unha, sem unha, eu queria viver”.

Aos olhos dela

Contar sobre a doença para Mel, a filha de 4 anos, foi um desafio. Mesmo que a pequena não tivesse dimensão do que significa estar com câncer, ver a mãe sem os cabelos é algo impactante. Ainda mais para ela, que gosta de cabelos longos: “Isso seria muito agressivo aos olhos dela”. Jô tentou ser forte, mas quando veio a perda dos cabelos, preferiu usar uma peruca por um tempo.

Quando decidiram contar, escolheram uma forma lúdica. Contaram, então, que Jô faria um tratamento com medicamentos fortes e que ficaria um tempo sem cabelos, no entanto, os cabelos cresceriam de novo e: “poderia crescer azul, amarelo, vermelho como o da Ariel ou comprido como o da Rapunzel, a gente não sabia, ia ser uma surpresa”.

No dia de cortar os cabelos, Mel estranhou um pouco e quando o corte estava na metade, tentou impedir que terminasse. Nos quatro dias seguintes teve febre e a pediatra disse que era algo emocional.

Por isso que Jô optou pela peruca por um tempo. Mas era dezembro no Rio de Janeiro e o calor era intenso. A quimio causava calores e mal estar. Jociane ficava livre da peruca enquanto a filha estava na escola. Quando Mel retornava, a peruca ia para a cabeça: “Às vezes acontecia de colocar a peruca um pouco torta”. A situação era incômoda e um dia resolveram contar a verdade.

A primeira coisa que a pequena fez foi pedir para ver a peruca. E para colocar. “Aí a gente já falou que na festa dela da Branca de Neve ela poderia usar, que ficou bem parecido”.

Mel, a filha de Jociane, quando experimentou a peruca da mãe.

Força, foco e fé

Um dia, durante a segunda quimioterapia, os cabelos caíram completamente. Jô sentiu dor no couro cabeludo um dia antes da queda completa. “A gente sente como se tivesse arrancando o couro cabeludo”, explica. Com os cabelos que caíram, escreveu no chão do banheiro as palavras: Força, foco e fé. “Era um momento que eu precisava acreditar naquilo”, conta.

Falou também para a filha que seu cabelo realmente havia caído todo. A pequena já estava mais tranquila e Jô acredita que sua postura de manter a tranquilidade e não ficar triste o tempo todo contribuíram para isso.

A gratidão de ver o sol nascendo

Jô e sua filha

“A gente não tem tempo para fazer as coisas que a gente deveria fazer”. É assim que Jô explica porque nunca tinha feito pilates antes. Foi preciso que a vida desse uma cambalhota para que ela desse atenção ao essencial. E hoje o foco é aproveitar o que a vida oferece. Iniciou a prática de pilates, acroyoga e até rapel. “Tô me encontrando nessas atividades”, diz. A superação pessoal é gratificante.

Já era uma pessoa sensível, mas nesse momento da vida se permite sentir tudo com intensidade. Uma simples borboleta pode emocionar: “Que linda, que maravilha poder contemplar isso!”. Um sentimento profundo de agradecimento: “Gratidão de ver o sol nascendo”.

Apesar de tudo acredita: “Tenho mais vida dentro de mim do que células cancerígenas”.

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